terça-feira, 20 de julho de 2010

Bate na minha cara

Sua chatice era um oportuno álibi para errar novamente. Seus gritos, lamentos no vácuo. Tristezas varridas para baixo do tapete.
Nenhuma novidade até ai. Relacionamentos terminam lastimavelmente a cada cinco minutos só na nossa rua. Uns com choro, outros com âue, outros com partilha, outros com emoticons. Ao contrario de como todos esses casais fúnebres justificam seus erros, o amor não acaba. Ele é calmamente carcomido por cada pequena repressão. Ele não tem fim, morre apenas.
Todo “fim” é uma sucessão de erros mal digeridos, protagonizados pela língua que profere durezas, ao invés de cumprir seu único papel no namoro. Lamber o agridoce do outro ao amanhecer. O amor termina por onde começa. Pela boca. Esse é o único e maior erro de um parceiro. Falar o que realmente não importa, abrindo feridas irresilientes e caminhos sem volta. A palavra “desdizer” nem precisava existir. Temos dito. Ela é indigente dentro do dicionário. Não se erra buscando acertar. Se erra. Se perde. Se diz. Se engana. Se reprime.
Eu errei. Não devia ter seguido tais faróis, às três da manhã. Não devias ter ajoelhado aos frescos engates daquela outra garota. Errei em acoberta esse sintoma. Errei em admitir isso tanto tempo depois, jogando frustrações na sua cara, dando vazão ao possível fracasso dessa relação.
Errei quando compactei com o silencio no corredor, entre a cama e a tevê da sala. Errei quando rompi comigo mesmo, quando não tive força e coragem de viver meus loucos desejos contigo, conforme previsto e combinado. Errei, errei, errei. Nunca tentado acertar. Sempre que erro, aprendo a errar melhor.
Porem, seu choro escondido nunca me intimidou. Também, eu nunca o soube. Seus desabafos com as amigas do salão, do trabalho, da aula não me servem de castigo. Eu nunca os tive acesso. Suas frases de protesto, sempre desconexas e despropositadas jamais me impediram de errar, trair, judiar, reprimir. Pelo contrario, sua chatice era um oportuno álibi para errar novamente, sem culpa. Seus gritos, lamentos no vácuo. Tristezas varridas pra baixo do tapete. Nenhum choro, discussão, silêncio ou retaliação me fez retroceder, repensar, penar. São meros avais pro meu comportamento.
Se houver uma outra oportunidade, meu bem, diante de um erro meu, acerte. Minha cara. Forte, com um tapa de novela, sem medo de errar, com vontade de acertar. Pense na dor que causei. Na minha cara de otário. Materialize sua frustração. Dê vida a sua morte. Sem fúria, sem conseqüências, sem som além do estampido. Na ponta dos pés. Olhando nos meus olhos. Um tapa seco. Um tapa sincero. Um tapa definitivo. Se amor é demonstrado fisicamente, cabe o desdém fazer o mesmo.

2 comentários:

  1. eita....
    que texto...um tapa definitivo...desdém...muito bem escrito...parabens ^^

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